Sobre versificação em língua portuguesa (9)

Finalmente, chegamos aos versos decassílabos. Bem como os heptassílabos, os decassílabos são os versos mais naturalmente produzidos em nossa língua pátria. De Luis Vaz de Camões a Fernando Pessoa, de Gregório de Mattos a Vinícius de Moraes, nossos grandes poetas expressaram nossa alma em decassílabos. Não há nada melhor do que conviver na presença desses autores ilustres. Sobre a acentuação rítmica, existem as clássicas combinações: na quinta e na décima sílabas, na sexta e na décima, na quarta, oitava e décima sílabas, na quarta, na sétima e na décima, na quarta e na décima, e outras variações introduzidas pelo modernismo. O melhor mesmo é ler cada poema e descobrir sua acentuação.

Vamos aos exemplos. Pra começar, um soneto clássico de Camões: Alma minha gentil, que te partiste. Não por acaso o trago aqui. Como disse outro poeta, é melhor ter amado e perdido, do que nunca ter amado. Além da beleza, ele contém o cacófato mais lindo da nossa língua no primeiro verso (os mais safadinhos notarão logo a ardente saudade do poeta, que ia além da alma da amada):

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

***

De Fernando Pessoa, na pessoa de Álvaro de Campos, incluo o Soneto Já Antigo (1913):

OLHA, DAISY: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra Iorque, onde nasceste (dizes…
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes

Embora não o saibas, que morri…
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará… Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande…
Raios partam a vida e quem lá ande!

***

De Gregório de Mattos, temos o famoso À Cidade da Bahia:

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.

***

E nada melhor do que um craque da poesia falando de outro. Vinícius de Moraes escreveu O Anjo de Pernas Tortas em homenagem a Mané Garrincha:

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!

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3 pensamentos em “Sobre versificação em língua portuguesa (9)”

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