Sobre versificação em língua portuguesa (6)

Chegamos finalmente aos versos heptassílabos, que perfazem a redondilha maior, forma mais natural em nossa língua, junto com os decassílabos. Como esses versos são os mais freqüentes, há uma grande quantidade de poetas que escrevem nesse metro, que é extremamente cantante. Exemplos desses versos são muito fáceis de encontrar. A acentuação tradicional recai nas sílabas segunda, quinta e sétima, ou terceira, quinta e sétima, com variações.

Começamos pelo exemplo óbvio, que é a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, que escreveu esse poema quando estava em Coimbra, em 1843:

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

***

Pra quebrar a cerimônia, trago alguns versos de Gregório de Matos e Guerra (1636-1696), o chamado Boca do Inferno ou Boca de Brasa, nosso grande poeta barroco. Assim ele Define a sua cidade na redondilha (há alguma diferença entre o século dele e o nosso?):

 

Mote (ou desafio):

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver,
um furtar, outro foder.

Glosa (é a resposta ao mote, em geral feita em décimas, ou seja, estrofes de 10 versos; o último verso de cada estrofe é um dos versos do mote; o esquema das rimas é ABBAACCDDC, ou seja, o primeiro, o quarto e o quinto versos terminam em sons iguais, e assim por diante, como mostra o esquema):

1.Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito e bem feito:
por bem digesto e colheito,
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
De dous ff se compõe.

2. Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
Esta cidade a meu ver.

3. Provo a conjetura já
prontamente com um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A,
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

***

E para introduzir um dos maiores poetas em língua portuguesa, trago o poema Autopsicografia (em heptassílabos, é claro!), de Fernando Pessoa (1888-1935). Pessoa, que publicou apenas um livro em vida, Mensagem, é famoso por seus heterônimos, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, os mais conhecidos (o meu preferido é o Álvaro de Campos, que é quem admirava Walt Whitman, coincidentemente o meu poeta favorito). Mais do que pseudônimos, eles são verdadeiras personalidades dentro da personalidade de Fernando Pessoa, com nomes próprios, poemas próprios e histórias de vida próprias. O poema em questão é de Bernardo Soares:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

***

E pra terminar esta seção, nada melhor do que os versos de outro grandíssimo poeta português, o Luís Vaz de Camões (1525-1580), que foi o consolidador da língua portuguesa, que ampliou sua expressão através de sua vasta obra. Naturalmente, escreveu muitas redondilhas. Vamos ver a Cantiga que ele fez a este moto (mote):

*

 

Deu, Senhora, por sentença

Amor, que fôsseis doente,

para fazerdes à gente

doce e fermosa a doença.

*

VOLTAS (glosa)

*

Não sabendo Amor curar,

foi a doença fazer

fermosa, para se ver,

doce para se passar.

Então, vendo a diferença

que há de vós a toda a gente,

mandou que fôsseis doente

para glória da doença.

*

E digo-vos, de verdade,

que a saúde anda envejosa,

por ver estar tão fermosa

em vós essa enfermidade.

Não façais logo detença,

Senhora, em estar doente,

porque adoecerá a gente

com desejos da doença.

*

Que eu, por ter, fermosa Dama,

a doença que em vós vejo,

vos confesso que desejo

de cair convosco em cama.

Se consentis que me vença

este mal, não houve gente

de saúde tão contente

como eu serei da doença

***

Artigo anterior sobre noções de versificação.

Que tal compartilhar este texto com seus amigos? Basta um clique e estará nos ajudando muito!

2 pensamentos em “Sobre versificação em língua portuguesa (6)”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *