Sobre versificação em língua portuguesa (5)

Tratamos agora dos versos hexassílabos ou hexassilábicos, que não são muito comuns em língua pátria, pois nossos poetas preferem as redondilhas e os decassílabos. Estes versos são acentuados em geral na terceira e sexta sílabas, mas podem também ser acentuados na primeira, quarta e sexta sílabas. Também podem ocorrer variações (segunda e sexta sílabas), mas a acentuação na sexta sílaba é necessariamente fixa, para estabelecer esse metro, bem como em alguma outra anterior, menos a quinta. Como já falamos, o que caracteriza o verso é exatamente a repetição de padrões rítmicos. Para quem gosta do termo anapéstico, o verso hexassilábico com acentuação na terceira e sexta sílabas pode ser visto como duas unidades de anapestos. Vamos aos exemplos.

Encontrei um poema de Olavo Bilac (1865-1918, poeta parnasiano já citado na introdução), “A Canção de Romeu”, na qual os dois versos iniciais de cada estrofe são hexassílabos. Neste poema vou colocar algumas barras verticais para fazer a escansão, pelo fato de ser preciso boa experiência com versos para ver onde há elisões ou fusões de sons (vocês se exercitem nos outros versos):

A/bre a / ja/ne/la… a/cor/da!
Que eu/, só /por /te a/cor/dar/,

Vou pulsando a guitarra, corda a corda,
Ao luar!

A/s es/tre/las /sur/gi/ram
To/da/s: e o /lim/po /véu/,

Como lírios alvíssimos, cobriram
Do céu.

De /to/da/s a /mais /be/la
Não /ve/io in/da/, po/rém/:

Falta uma estrela… És tu! Abre a janela,
E vem!

A al/va /cor/ti/na an/sio/sa
Do /lei/to en/trea/bre; e, ao /chão/

Saltando, o ouvido presta à harmoniosa
Canção.

Solta os cabelos cheios
De aroma: e seminus,

Surjam formosos, trêmulos, teus seios
À luz.

Repousa o espaço mudo;
Nem uma aragem, vês?

Tudo é silêncio, tudo calma, tudo
Mudez.

Abre a janela, acorda!
Que eu, só por te acordar,

Vou pulsando a guitarra corda a corda,
Ao luar!

Que puro céu! que pura
Noite! nem um rumor..

Só a guitarra em minhas mãos murmura:
Amor!…

Não foi o vento brando
Que ouviste soar aqui:

É o choro da guitarra, perguntando
Por ti.

Não foi a ave que ouviste
Chilrando no jardim:
É a guitarra que geme e trila triste
Assim.

Vem, que esta voz secreta
É o canto de Romeu!

Acorda! quem te chama, Julieta,
Sou eu!

Porém… Ó cotovia,
Silêncio! a aurora, em véus
De névoa e rosas, não desdobre o dia
Nos céus…

Silêncio! que ela acorda…
Já fulge o seu olhar…

Adormeça a guitarra, corda a corda,
Ao luar!

***

Outro poeta que escreveu poemas utilizando o hexassílabo foi Guilherme de Almeida (1890-1969). O poema é “Definição de Poesia” (notem que neste caso não há fusão dos sons, ao contrário, é preciso seguir a pronúncia natural da língua para produzir as seis sílabas métricas, com exceção do último verso):

Aí está a rosa,

aí está o vaso,

aí está a água,

aí está o caule,

aí está a folhagem,

aí está o espinho,

aí está a cor,

aí está o perfume,

aí está o ar,

aí está a luz,

aí está o orvalho,

aí está a mão

(até a mão que colheu).

Mas onde está a terra?

Poesia não é a rosa.

***

E não poderíamos deixar de citar o famoso poema “A Rosa de Hiroshima”, de Vinícius de Moraes (1913-1980), em que o poeta mescla pentassílabos com hexassílabos (em negrito) para fazer a denúncia da bomba atômica, a estupidez de humanos contra humanos que continua ameaçando a vida na terra:

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

***

Confira o artigo anterior.

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